Mulher-cereja
Ele se surpreendeu com aquela doçura. Beirava quase um leite condensado descendo garganta abaixo. Mas conteve-se em apenas observar. Quando chegou à casa dela, observou uma zebra em cima da geladeira, em vez de um pingüim. Embora ambos mamíferos fossem em branco e preto. Concluiu assim que ela sempre tinha uma forma de transgredir, ainda que sutil. Teve medo. Quase achou sua casa parecida com o apartamento de Hepburn, em “A bonequinha de luxo”. Ela, meio atrapalhada, serviu refrigerante. Ele, mesmo sendo tutor de uma úlcera, bebeu.Como negar alguma coisa a ela? Como? Se ele tinha tanto a pedir? A TV da sala ficava em cima da máquina de costura. Ela mesma fazia suas roupas. Mas tão pequena - ele pensou. Quem tiraria aquela TV dali? Em exatos 10 segundos sofreu o ciúme dos que não têm nem por que ter ciúme. Ele não era nada seu. Mesmo assim, desejou animadamente levar o cachorro de pelúcia dela para tomar sol. Antes, antes mesmo de tudo – do beijo, do toque, do amasso – ele queria ter o que fazer por aquela mulher.Ela ofereceu cerveja gelada, mostrou uns vinis antigos e uns mapas da França. Precisava ser amigo apenas e se controlar. Precisava ser amigo. Quase um anjo naquele apartamento anos 50. Um anjo. Não um animal. Segurava-se. A boca dela rosa. As mãos mexendo e dançando no ar sem parar, enquanto ela falava, falava, falava._Você não vai me beijar? – perguntou ela.
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